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    INGRID - O Universo de Sideron
     


    Fragamentos livres 3 - Homem-Deus

    De todas as suas qualidades, a que mais me cativa em Marieh é sua inventividade.

    Esta minha condição de existência, plasmática, pós-vida, neste planeta pequeno. Ela me dá possibilidades que o corpo antes limitava. E delas, a que mais me fascina é a possibilidade de penetrar na alma do homem de Sideron. E em Mariéh, sentir todo o esplendor de suas criações, além das letras, das tintas, do papel, das palavras, das figuras, da boca, do corpo, da matéria. É a alma de Marieh que cria. É a alma do homem que cria. E da criação, nascem universos, personagens, homens, mulheres, mundos, casas, uma nova física, uma outra natureza. O que alguns poderiam chamar de fantasia, eu, em minha condição pós-vida, tenho o impulso de chamar de divindade.. Todos os homens tem esse poder. São deuses de suas criações. E minha condição me privilegia vislumbrar esses deuses.

    Então me volto a minha própria condição e questiono essa existência. O que sou de fato? O que vejo? Sem olhos, sem carne? Que experiências são estas que vivo? Sem leis de tempo, de espaço e de matéria? Sou pura mente, puro espírito, ou puro seja lá o que nos mantém conscientes sem nossos átomos. Como posso penetrar desse modo na existência de Marieh? Ver sua mente criadora nua, sem as paredes da carne ou das palavras? Vê-la deusa...

    O que sei é que morri em meu mundo. Recebi uma missão a cumprir. Vim a Sideron e aqui devo cumprir minha missão. Esse pequeno pedaço de universo é um espaço onde não vejo nenhum igual a mim, apesar de muitos eu ver em condições pós-vida. Será que eu sou um Deus para os homens de Sideron?

    Não consigo mais ter uma idéia dessa Palavra. Os padres me falaram sobre Ela durante grande parte de minha vida. Me vejo agora numa posição semelhante a um deus em Sideron, mas não me admito Deus. Mas vejo Marieh como deusa de suas criações. Vejo Marieh assim porque consigo ultrapassar as paredes das palavras que ela escreve. Talvez devesse ultrapassar também as barreiras da palavra Deus para não me perturbar por ela. Mas não posso simplesmente negar o meu consciente. Impregnado das palavras que lhe formaram. E uma delas é Deus. Sou um produto de todas as coisas que me falaram um dia, todas as coisas que li, todas as criações dos outros que mergulhei. Livros, ditos, filmes, peças, quadros, artes, sermões, brigas, conversas, anedotas, aulas. Tudo está em mim. Vivi, morri e me transportei no espaço para este mundo pequeno, e todas essas palavras que li e ouvi na vida continuam comigo. Por que não encontro ninguém como eu aqui? Porque consigo ver além da matéria? Não posso acreditar que seja um Deus. Talvez um super-homem. Não o dos quadrinhos de Shuster que li em meu mundo. Talvez o de Niezsche. Que disse que Deus estava morto. Mas qual deus? Vejo vários. Marieh é para mim uma deusa, que cria, soberana de seu universo literário. Eu seria um Deus? Onipresente em Sideron, vendo o que nenhuma alma, vivente ou não, consegue ver nos homens?

    Então se toda a minha consciência é fruto de todas as coisas que li, vi, toquei e presenciei... Se a minha mente é um aglomerado de textos que já li - da Bíblia a 2001-Uma Odisséia no Espaço - então o que sou eu na minha pós-vida? Um puro eco de minha consciência vivente? Meu estágio pós-morte é um puro estágio de alucinação, onde não tenho mais um cérebro limitante e minha capacidade de criar é infinita? Criei em meu consciente Sideron? Criei Marieh? Criei os meta-ahumanos, a cidade suspensa, a tribo Insag como fruto de uma ressonância de tudo que li em vida? E a minha missão aqui em Sideron? Eu criei? Eu lembro de Ingrid vividamente. Eu devo salvá-la. Preciso salvar essa pequeníssima parte de seu ser: esse pequeno planeta. Ele é parte dela. Seria Ingrid Deus de Sideron? Seu universo? Eu seria seu Deus, não enquanto entidade espiritual supra-presente em todos os seus espaços e tempos. Mas enquanto consciência que a criou... Impossível chegar ás respostas da palavra Deus. Devo me desvencilhar da palavra. Ela limita.

    Existe uma energia pulsante onde Sideron é mergulhada. Eu a vejo, como nenhum espírito vivente ou não-vivente vê. Uma água onde todo o universo de Sideron está mergulhado. Os espíritos de meu mundo as chamariam de espírito e corpo de Ingrid. Talvez os espíritos de Sideron e de todo esse universo a chamem de Deus. Mas para mim, a palavra carrega muitas outras histórias. Então é melhor não a chamar assim. Apenas vislumbrar essa água. E se o corpo de Ingrid abriga este universo, no corpo de todos há um universo. Então todo homem é deus. De suas criações e de seu universo. Aqui eu novamente usando a palavra! Mas ela é o único meio nesse momento.



    Escrito por Elizio Eluan às 12h07
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    FRAGMENTOS LIVRES2 - Insag

    Olhando de cima parece que Insag é um oásis por entre o nada de Sideron. A delimitação da abundante vida da tribo - com sua floresta, plantações, riacho, rio, gente - e o deserto que a guerra havia deixado, é bem definida.

    Todo esse espaço que alimenta a tribo deve ter aproximadamente uns 10 quilômetros quadrados. Insag em si ocupa menos de 1/6 dessa área. É formada por círculos de casas, que por sua vez forma um grande círculo incrustado no meio da floresta. Percebem-se algumas áreas de plantio que também cortam o rigor do emaranhado de árvores que rodeia a tribo.

    Ao sul, uma pequena estrada de chão batido leva à única saída visível de Insag, que desemboca na ponte sobre o Rio Mesag. Dali sai um caminho ondulado, que ainda corta a floresta com suas várias árvores na margem oposta do grande rio. Mas não precisa percorrer muito para ver a floresta se esvair em uma vegetação de savana e, um pouco mais adiante, num grande deserto sem vida.

    Percorrendo uma linha reta para leste, é possível facilmente chegar ao que podemos identificar como um caminho que, na verdade, antes era uma auto-estrada, que leva à hoje decadente metrópole Nemansky, atual capital do planeta.

    Mas se, ao sair da floresta, cortarmos o deserto para sudoeste, encontraremos outra tribo: Zenit, onde o sinal de uma rádio difusora que lá foi montada consegue, com sorte, chegar até Insag e entreter seus habitantes. Ao norte, separada de Insag pela floresta, existe outra tribo: Amagor, que consideram deuses os meta-humanos.

    Mas nenhum desses aglomerados de pessoas viventes desse minúsculo pedaço de Sideron é como Insag. Para quem veio de outro mundo, como eu, e percorreu vários pontos desse planeta em busca de meu objetivo, é um gratificante encontro a visão da boa energia das pessoas que ali vivem, do lugar cheio de vida e da organização civilizada que têm. Mais gratificante ainda é perceber que meu objetivo encontra-se ali. Mais precisamente chegando à casa de saúde, onde Agnar encontra-se internada.

    Ao abrir a porta do quarto de Agnar, ensopada da chuva que cai lá fora, Marieh parece visivelmente temerosa, travada, trêmula. Mas um leve pouso da mão de sua tia Mishna em seu ombro parece tê-la encorajado. E antes de completar seus primeiros três passos em direção à cama, a fraca voz de Agnar parece, ao mesmo tempo, ter limpado o medo de Marieh e lhe revelado a gravidade da situação. “Venha, meu amor! minha irmã!”. Marieh cai em prantos. Perdeu muito tempo de sua vida com seu excessivo respeito por ela. Não a conheceu. A Agnar chefe foi uma barreira para Marieh ter chegado a sua irmã. Mas parece que, naquele momento, era a sua irmã que se chega à Marieh e lhe fala. E pela primeira vez. E está morrendo.



    Escrito por Elizio Eluan às 00h01
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    FRAGMENTOS LIVRES 1 - Marieh

    A casa de saúde da roda 5 da tribo Insag fica a apenas uns 200 metros do lar dos Nasir. Mishna não demorou 10 minutos para percorrer o caminho. Está um pouco hesitante na porta de sua própria casa, protegida da chuva por uma capa impermeável feita de fibra de arlepa, árvore abundante na região.  Quem a viu ali a princípio não entendeu porque uma senhora de 58 anos permanecia parada na chuva à porta de sua própria casa. Não entendeu, mas certamente preocupou-se, afinal qualquer acontecimento na casa dos Nasir atrai a atenção de toda a tribo. Ainda mais nesses últimos 3 meses.

    Mishna leva aos pulmões uma quantidade suficiente de ar que lhe dê mais coragem no  peito, abre a porta da choupana de madeira e entra. Não tira a capa molhada, apenas o capuz que lhe cobre a cabeça. Passa pela sala de estar rangendo o chão propositalmente para anunciar sua chegada, invade o corredor e chega até a porta do quarto de Marieh onde pára novamente. Até congela por um breve instante o movimento de seu braço... Prossegue e bate a porta levemente pedindo permissão para entrar. Entra sem a permissão.

    É o quarto de uma garota de 15 anos de Insag, que pouco lembra o quarto de uma garota de 15 anos do meu mundo. Não tem os mimos, as cores e a infância. Mas há a sensibilidade e a feminilidade produzidas pela própria menina já amadurecida pelo ritmo de vida desses tempos difíceis, não só para a tribo, mas para todo o planeta Sideron. Essa sensibilidade é particularmente desenvolvida em Marieh pela sua inata habilidade para as artes de maneira geral.

    - Marieh! – Mishna chama ainda postada à porta do quarto, mas a menina continua escrevendo em sua escrivaninha, como de hábito. Ela insiste – Marieh, sua irmã quer lhe ver... Mishna agora se aproxima da menina de forma lenta e firme. Senta-se na cama ao lado da mesa.

    - Minha peça ganhou corpo, tia. Já estou no terceiro capítulo. O pessoal vai gostar! Marieh responde indiferente à pergunta da tia.

    Mishna então, num movimento seguro, mas não menos carinhoso, tira o lápis das mãos de Marieh, segura em suas duas mãos e a coloca de frente, de modo que possa dispor de toda a tenção da menina.

    -Marieh... Escuta! – a senhora dá um tom mais ríspido às suas palavras - Ela está morrendo! Entende? Morrendo! Sua irmã está muito mal. Marieh não tira os olhos de sua tia. Agora não tem como fugir da conversa. Não tem como ignorar a situação. – Se você não for ver Agnar, a dor no seu coração vai durar pra sempre, ouviu! Ela está mal há 3 meses, e há 3 meses ela não lhe vê. Agnar precisa de você, Marieh. Agora!

    Marieh fugia de todo modo da situação até aquele presente momento. Sua relação fechada com sua irmã durante toda a vida não abriu espaços para expressão de sentimentos. Uma relação silenciosa, de um exagerado respeito a Agnar, chefe da tribo e chefe da sua casa. Não foi capaz de entender porém que, naqueles 3 meses, Agnar precisou dela. Não sabia como iria reagir ao ver a irmã frágil e não queria enfrentar a sua falta de reação naquela situação. Aquilo a obrigaria, pela primeira vez, a expressar seus sentimentos por Agnar. Aquilo seria inédito com a irmã. Preferiu esperar sua melhora para falar com ela como sempre falou: de modo respeitoso, com sorrisos previstos e gestos contidos, deixando todos os seus sentimentos bem dentro de si, como sempre fazia. Não porque queria, mas porque não sabia lidar com a irmã de outra forma. Nem sabia exatamente que sentimentos tinha e guardava por ela. Expressava tudo que pensava apenas nas histórias que escrevia, e que não sabia se Agnar gostava delas de fato ou apenas as elogiava por serem escritas por sua irmã.

    Agora, porém, Marieh percebe que a situação é mais inédita do que esperava. Agnar está morrendo. Nunca mais irá falar novamente com ela. Nem sob gestos contidos.

     



    Escrito por Elizio Eluan às 23h36
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    Escrito por Elizio Eluan às 21h22
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    6. Medo e Gratidão (continuação)

    Ao ver os meta-humanos chegando em Insag, Veothar encontrou em sua memória a visão daquela batalha aterradora que havia presenciado em Nemansky. Sabia, no entanto, que aqueles seres não eram mais tão sangrentos como há trinta anos.

    A energia que pulsava dentro dos corpos dos meta-humanos foi a mesma que manteve Veothar vivo e saudável durante este tempo todo. Isto aconteceu graças aos estudos secretos do Dr.Eliar sobre meta-humanos que resgatara com ou sem vida das batalhas de Nemansky. Ele acompanhou a evolução destes seres e mostrou a Veothar que, 30 anos depois, não eram mais apenas máquinas de guerra. Cultivava agora esta informação como uma semente de esperança de que nada de mal aconteceria com Insag, aquele pequeno refúgio do que havia de melhor do homem sideroniano.

    Subitamente Veothar lembra de sua missão em Insag e percebe que a filha de Josah não estava mais no seu campo de visão. Tentou se deslocar para a casa de administração por entre o desespero das pessoas. Percebera que os moradores de Insag não tinham mais interesse pelas armas. Todos se amontoavam para chegar nos meios de transporte ou corriam feito loucos para fora da tribo com suas crianças e quase nenhum pertence. O tumulto causava desentendimentos, jogando uns contra os outros em busca da salvação.

    Ao chegar ao terraço da casa, Veothar vê Marieh no centro do parlatório, como que assumindo o controle de sua tribo, aguardando a chegada dos meta-humanos junto com Monsenir, Pazir e Nelis. Aquela era a primeira vez que Insag ouvia a voz de sua futura chefa ecoar.

    - Não podemos enfrentá-los! Não temos armas para defender nossa tribo contra os senhores, como tantas vezes fizemos com outros! Não temos seus poderes maravilhosos e sua tecnologia fantástica! Tudo que temos é uma terra que amamos.

    Era uma voz agradável e acolhedora. Tombava forte de encontro ao contrastante desequilíbrio dos que ouviam lá em baixo. E quem ouviu, reconheceu que ali falava uma Nasir. E isso fazia bem para seus corações.

    - Eu sou Marieh dos Nasir, chefe de Insag. Quero falar com vocês que chegam a minha tribo - ela dirigia seu olhar para cima e não viu sua tribo ser invadida por uma onda de paz que aos poucos acalmava os desesperados.

    - Sei que podem me ouvir. Seja qual for sua missão aqui, saibam que temos em nossos corações a dádiva do amor por nossa casa. Nossa ligação com a terra vai muito além do contato de nossos pés com esse chão. Nossa própria alma está plantada aqui tanto quanto o milho que cultivamos. Não vamos deixar Insag sem antes conversarmos com os senhores e sabermos o exato motivo de sua vinda.

    A tribo inteira era silêncio e calma.

    - Portanto, aos senhores que chegam, sejam bem-vindos a Insag, a nossa casa!

    A mensagem de paz de Marieh falou mais alto aos corações daqueles trabalhadores da terra e artesãos que a convocação guerreira do ex-combatente Monsenir. Marieh viu seu povo aliviar com suas palavras, extirpando definitivamente o medo de seus corações e a responsabilidade de guerrear.

    Ela então passa a evocar um lindo cântico conhecido por todos na tribo, pedindo que os mortos iluminem o caminho dos vivos. A tribo inteira canta com Marieh.

    A possibilidade da paz, a solução da diplomacia, deu mais coragem e esperança a todos, inclusive a Monsenir que fitava Marieh com um orgulho latente. Justamente ele, que era responsável por sua educação junto com Nelis. O homem guerreiro, companheiro de Josah na formação de Insag, via naquelas palavras um momento chave na formação da líder Marieh. A menina extremamente humana e criativa, que escrevia histórias fantásticas inspiradas no heroísmo e caráter de seus avós e pais, aos poucos se transforma numa adulta e passaria a escrever não mais uma literatura fictícia, mas uma história real. Essa era a visão de Monsenir. Mas infelizmente não seria uma realidade plena.

     

    (continua em maio)



    Escrito por Elizio Eluan às 16h23
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    6. Medo e Gratidão

    Até 4204, as redes de comunicação em Sideron eram extremamente eficientes. Grandes cadeias de radiodifusão e ondas eletromagnéticas, visuais e auditivas, redes de bytes, além de elaboradas malhas de distribuição de mídias impressas, tornavam as nações mais próximas uma das outras.

    Esse super sistema de informação influenciava o pensamento e as atitudes do homem de Sideron. Tinham acumulado durante toda a sua história um alto valor de confiança da grande maioria da população. Foi exatamente este sistema o grande responsável pela divulgação das provas e pensamentos que concretizavam o chamado "deus alienígena". Foi a última grande verdade que difundiu. Antes de qualquer debate sobre o assunto ganhar forma, a guerra evoluiu de maneira dramática, tornando as novas informações sobre a criação da vida e do homem de Sideron uma soma na depressão nas civilizações já descrentes de suas divindades.

    Entre os anos de 4204 e 4205, Sideron assistiu a um processo de pulverização de todos os sistemas de informação do planeta. Satélites, antenas, grandes estações, mega corporações de comunicação... Tudo foi estrategicamente transformado em pó e ferro retorcido - junto com os sistemas de transporte e estruturas jurídicas e governamentais - pelas forças da guerra. A humanidade se isolou em nichos de sobrevivência.

    As informações passaram a correr embutida em boatos, que logo se transformavam em grandes histórias contadas de boca em boca. Algumas se transformavam em lendas, que formavam mitos, muitas vezes embasados em pura ficção. As caseiras redes de bytes e estações de radiodifusão - que aos poucos se multiplicavam pelas cidades - contribuíam para a ploriferação dessas verdades contaminadas.

    Para muitos, os meta-humanos eram uma dessas lendas/verdades. Conhecidos por sua força e poderes extraordinários, muito além dos conhecimentos científicos que Sideron tinha acumulado até então, poderiam ser comparados aos antigos mitos das civilizações mais remotas do planeta. Eram o desconhecido presente e real, chamados por muitos de semideuses. E como todo o desconhecido, causavam sentimentos que vagavam entre o medo e o louvor. Algumas tribos e grupos urbanos os transformaram em personagens sagrados da intrínseca necessidade humana de adorar e temer algo superior.

    Os territórios dominados por Scorpion, inimigos dos meta-humanos, os viam como verdadeiros demônios, arautos de sofrimento e morte. Os aliados de Órion tinham profunda gratidão por eles e um respeito que beirava o louvor, muitas vezes transformado em medo.

    Com o fim da guerra declarada, a presença de meta-humanos, seja onde fosse, era sinal de batalha e destruição em busca de resistências de Scorpion ou protegendo Sideron de novas invasões vindas de fora do planeta. Em Insag, poucos conviveram diretamente com meta-humanos. Veothar e Monsenir haviam tido contato.

    Eles tinham acabado de receber baixa do exército e voltado para Nemansky. Depois da morte do chefe da nação, assassinado por Andir dos Nasir, Lisarb enfrentava uma crise política crescente, tornando impraticável o sustento de tropas na guerra. Era o ano 4208. No dia em que as tropas humanas haviam chegado de volta a capital, Lisarb sofreu um duro ataque de Scorpion. Nemansky era o principal alvo. Veothar, pouco antes da bomba de íons destruir o prédio do governo de Lisarb e o colocar em coma por 30 anos, havia avistado atônito a luta de meta-humanos contra uma horda de seres da Aliança Scorpion, que saiam das dezenas de veículos que eclodiam do subterrâneo da cidade. Monsenir viu também a cena, mas não teve a mesma visão sensitiva de Veothar. "Eles irradiavam uma áurea pulsante e lúgubre, chocando-se com a energia de mesma estirpe guerreira daqueles alienígenas que tentavam tomar Nemansky. Era energia divina, racionalizada pela ciência dos povos mais evoluídos, usada por seres que eram cópias modificadas dos mesmos homens frágeis de Sideron. Que combinação estranha e perigosa era aquela!", pensava Veothar. "Uma energia tão maravilhosa usada por uma biologia talvez pouco preparada para isso. A energia responsável pela vida racionalizada para a guerra. Que preço essa deturpação iria um dia nos cobrar? Ou será que já estaríamos pagando por isso?".  Fora o último pensamento de Veothar antes de aquela bomba o colocar entre a vida e a morte, onde eu pude encontrá-lo mais tarde.



    Escrito por Elizio Eluan às 17h22
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    5. Espelhos no Céu (continuação)

    Todos que estavam na roda central da tribo se aproximaram da casa de administração. Monsenir estava colocado numa espécie de parlatório, nos altos da casa. Ele fala ao povo:

    "Homens e mulheres de Insag! Devo ser breve pois a ocasião pede o máximo de objetividade".

    "Recebemos há cerca de 24 horas informações preocupantes sobre a segurança de nossa tribo.Tais informações vieram de uma pessoa de extrema confiança minha e da casa Nasir. Ele nos alertou sobre a vinda de meta-humanos para uma missão bélica em nossa tribo."

    Um murmúrio se fez na platéia formada na roda central.

    "Relutei com todas as minhas forças e toda a razão de meus pensamentos para não me deixar precipitar por estas informações. Nada parecia suficientemente palpável”.

    “Mas nesta noite eles se comunicaram conosco. Eles falaram através de nossos sonhos, assim como por muitas vezes nossos ancestrais o fizeram. Disseram para sairmos de Insag, para deixarmos nossa terra abençoada por Andir”.

    “O Conselho das Casas de Insag decidiu nesta manhã: quem tiver força e saúde, vai ficar e defender nossa tribo! Nós vamos lutar por Insag!" bradou Monsenir fazendo Insag reagir com total timidez. Um tanto constrangido, ele continua: "Porém, crianças, mulheres, idosos, enfermos e quem mais não se sentir em condições de ficar, devem partir imediatamente para a tribo Zenit nos transportes de carga que..." Monsenir é calado pela visão que acaba de ter dali do parlatório. Sobre as feições, ombros, corpos, chão e tetos de Insag, pequenos reflexos de luz vindos de alguma fonte desconhecida. Ao procurar a fonte deste estranho espetáculo, Monsenir olha para o céu. Veothar também ergue os olhos e vê centenas de pontos de luz, dispostos uniformemente em várias fileiras minuciosamente eqüidistantes entre si, vindo do céu como uma rede caindo sobre Insag.

    - Parecem estrelas caindo... - fala Marieh.

    - Não são estrelas - Veothar observa com preocupação.

    Todos passam a olhar e apontar para o céu intrigados. Um murmúrio vai crescendo na multidão.

    - O que é aquilo? pergunta Monsanir atônito para Pazir, que agora tenta reconhecer os objetos com um equipamento de observação à distância.

    - Não consigo identificar, senhor. Parecem luzes... Na verdade... São objetos que refletem a luz do sol, como espelhos. Ofuscam minha visão!

    Os transportes chegam para levar mulheres, crianças, idosos e enfermos de Insag. As pessoas começam a se agitar. Alguns correm para suas casas. A tribo passa a ficar cada vez mais iluminada pelas luzes que descem do céu. Monsenir percebe sua tribo entrando em pânico. Alguns gritam no meio da multidão "meta-humanos! São os meta-humanos!".

    - Se acalmem! - Monsenir tenta controlar sua tribo. Peguem apenas o necessário e entrem nos transportes! Sigam o chefe de cada transporte e façam fila! Para os que ficam, peguem suas armas com Nelis! Não se preocupem com os objetos do céu! Repito! Não se preocupem!

    Algumas mulheres se debatem para salvar no templo as lembranças de seus entes. No meio do tumulto vasos são quebrados. Alguns se ajoelham e pedem a proteção dos ancestrais. Mishna e suas irmãs se apressam para pegar os restos de Agnar, Josah e Andir.

    Outros correm pelas estradas para suas casas em outras rodas. Alguns vêm de outras rodas para entrarem na fila de distribuição de armas.

    No meio do caos que se forma, Veothar protege Marieh e a leva até um dos veículos de transporte.

    - Não, pare! Eu vou ficar! Reluta Marieh, fugindo dos braços de Veothar.

    A luz fica cada vez mais forte. O desespero em Insag aumenta.

    Pazir continuava olhando para o céu, até que finalmente chama Monsenir.

    - Tome, senhor! Olhe! - Monsenir pega o equipamento de observação das mãos de Pazir e o aponta para o céu. Agora vê nitidamente.  Homens, com uniformes prateados que refletem a luz solar descendo dos céus, como deuses, com seus punhos cruzados sobre o peito. Eram os meta-humanos de Sideron chegando em Insag.

     

    (continua sexta, 26 de março)



    Escrito por Elizio Eluan às 17h39
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    5. Espelhos no Céu

    Foi uma noite chuvosa. Mais uma que Monsenir passava sem dormir. A reunião com todos os chefes das casas tinha sido marcada para às sete da manhã.

    Veothar estava à porta do Templo dos Ancestrais quando avistou, às 6:45, Monsenir chegando na Casa de Reuniões. Foi o mesmo horário que o primeiro morador de Insag chegou ao templo para orar. Ele andava em volta da pilastra central que sustentava o teto e era circundada por uma parede formada por batentes sobrepostos, onde ficavam as lembranças dos parentes mortos de Insag. Aquele era o altar do templo.

    30 minutos depois, umas quatro dezenas de pessoas já tinham se juntado a ele. Muitos acompanhavam seu andar com cânticos. Outros se mantinham em silêncio. Veothar se comoveu com aquela cena. Era uma forma de fé condizente com tudo pelo que aquele povo tinha passado em 4 longas décadas. Cada ser inteligente de Insag tinha chorado a morte de parentes, pais, filhos, amores, amigos... Entes cuja presença só poderia ser levemente substituída pelo louvor à suas memórias.

     O sol já aparecia forte acima do horizonte e a movimentação da tribo foi crescendo. Veothar percebeu que as lavouras, manufaturas e cultivos, que ficavam entre as sete rodas de casas, já estavam cheias de homens e mulheres trabalhando.

    As rodas de casas se interligavam por estradas de chão batido, formando um grande círculo, que deveria ter uns 2 mil metros de diâmetro. O Templo ficava na roda central e se ligava a todas as outras 6 rodas por estradas também. Era um lugar privilegiado para Veothar observar o vai e vem daquelas pessoas. E todos olhavam para ele com certa desconfiança, mas procuravam mostrar respeito.

    Marieh e sua tia Mishna se aproximavam. Elas tinham a face tensa. Ao chegar à Veothar, olharam por alguns instantes em seus olhos, depois Marieh falou.

    - Eles falaram conosco! Os homens prateados falaram conosco!

    - Eu tive o mesmo sonho que Marieh esta noite - Disse Mishna. Eles falaram comigo e disseram para deixarmos Insag.

    - Eu sei, Mishna... Veothar fala. Eles se comunicam por sonhos. Todos em Insag receberam suas mensagens nesta noite. Isto vai decidir os rumos da reunião dos chefes

    Já eram quase oito horas. Monsenir sai da Casa de Reuniões à passos largos. Os chefes de Insag se espalham pela tribo a caminho de suas casas. Mosenir fala algumas ordens para Pazir e Nelis, que logo depois se movimentam eficientemente para cumprirem-nas.

    Atrás de Veothar, no templo, os cânticos pareciam ficar cada vez mais fortes. Mais e mais pessoas se juntavam a cada minuto, talvez levadas pelos sonhos que tiveram naquela noite. Outros continuavam seus trabalhos nas lavouras e nas manufaturas, mas Veothar percebia feições tensas e preocupadas.

    - Temos que lutar por Insag! - exclamou Marieh para Veothar como que pedindo ajuda. Ele ouviu com pesar a voz da menina, mas seus olhos viam Monsenir entrando numa outra casa, onde funcionava uma espécie de administração de Insag. Veothar então se vira para Marieh.

    - Não pode lutar contra eles, Marieh!

    Marieh e Mishna olhavam para Veothar querendo desafiar suas palavras.

    - Não conhece nosso povo! - fala Marieh.

    De repente os autofalantes da roda central e de toda a tribo pedem a atenção do povo de Insag. Era a voz de Monsenir. Aos poucos, as pessoas no templo vão interrompendo suas orações, os lavradores vão deixando seus trabalhos e todos aos poucos vão atendendo ao chamado de Monsenir.

    Marieh então respira fundo, inflando de ar o coração apertado, e olha para os céus com a mão no peito, como que buscando forças para enfrentar o que parecia ser o momento mais difícil de sua existência. Ao olhar para cima, percebeu que, mesmo sendo dia, o céu estava coberto de estrelas. Centenas de pontos de luz se colocavam bem acima de Insag.

     

    (Continua sexta, 19/03)



    Escrito por Elizio Eluan às 15h46
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    4. Mensagens de Ethar (continuação)

    O dia passou lento e o sol já começava a sumir no horizonte. Monsenir ainda não havia descansado depois de passar a noite cremando o corpo de Agnar. Precisava retomar aquela perturbadora conversa com Veothar e colher subsídios para a reunião com os chefes das casas de Insag na manhã seguinte. Monsenir queria saber mais detalhes a meu respeito. Ele senta-se à mesa onde Veothar já estava. Começa a conversa sem introduções.

    - Quem era o mensageiro de... Ethar?

    Veothar deixa a fruta que havia mordido sobre o prato de barro à mesa. Responde a Monsenir com a mesma paciência que mastiga e engole a fruta.

    - Um ser com energia maravilhosa. Me disse que não era deste mundo.   Talvez se os homens de Órion o vissem, dariam-lhe uma classificação acima dos humanos nível 3.

    - E ele pronunciou o nome de Ethar? - perguntou Monsenir.

    - Disse que estavam "usurpando a energia de Ethar". Acho que se referia a Energia Vital tirada das estrelas pelos Scorpion. Algumas lembranças são confusas. Lembro de ele ter dito sobre a "saúde" do universo, sobre a importância dos meta-humanos. Lembro de outras palavras sobre a energia da vida estar fraca... Sobre salvação.

    - Mas o que ele queria, qual seu interesse? Por que Marieh? Por que Insag?

    - Quando chegar a hora, cada planeta do universo terá um salvador para reavivar a energia espiritual dos seres inteligentes. Como foi Inri, há dois mil anos. A linhagem de Marieh, dos Nasir, parece estar predestinada para esta missão. Mas antes disso há muito a fazer.

    - O Que?

    - Minhas lembranças são confusas como sonhos... mas lembro que ele mesmo tem um propósito, uma missão neste universo.

    - Qual?

    - A vida de um ser próximo a ele parece estar ligada às energias de nosso universo. A energia de Ethar.

    - Que ser?

    - Só lembro de um nome, pronunciado por ele: Ingrid.

    MOnsenir olha para Veothar por um tempo e levanta-se impacientemente da mesa para caminhar pensativo até a porta de sua casa.

    - Suas mensagens são evasivas, Veothar. Sem provas, subsídios ou qualquer informação palpável que me faça convencer os chefes das casas de Insag a deixarem essas terras. A verdade é que eu mesmo não estou convencido. Sua retórica chega a ser mística, religiosa... Há muito esse tipo de argumento se tornou vazio em nossos corações. Como quer que acreditemos que a linhagem de Marieh dará origem a um salvador como Inri? Como quer que acreditemos nisso se cremos que Inri foi um enviado de Órion para por ordem nas crenças e valores de Sideron segundo algum "planejamento" interplanetário, como se fossemos um rebanho guiado o tempo todo de acordo com os próprios interesses dos pastores?

    - O que importa de onde veio ou quem mandou Inri, Monsenir? O que mais vale é que ele tinha muito a nos ensinar. O problema não está nele! O problema é que nós não aprendemos a vê-lo sem o véu das religiões, derrubado de forma precipitada pela guerra do universo, mas que um dia iria cair.

    Monsenir balança a cabeça negativamente, não aceitando os argumentos de Veothar.

    - Ethar tem muitas faces, MOnsenir! Um dia acreditamos que Ethar era uma pedra no centro da civilização dos Campsara, nos primórdios da Era do Ferro. Tiramos essa face de Ethar, evoluímos. Ethar veio sob outras inúmeras formas e nomes. Vieram então as religiões modernas. Inri e outros líderes nos trouxeram novos ensinamentos. Precisávamos deles para continuar nossa jornada naqueles tempos. Agora estamos vivendo uma outra virada de crenças. Uma outra face de Ethar está por vir.

    - Ou talvez não haja mais outra face, Veothar. Escute! Não precisamos discutir esses méritos aqui, é inútil. Eu acredito na energia dos mortos! É assim que funciona aqui. Eles existiram um dia e sua energia continua latente, por vezes se comunicando com os vivos, como você sabe muito bem. Eles nos guiam e nos protegem. E assim vai continuar a ser aqui em Insag.

    - Se é nisso que acredita, por que não ouviu o que os mortos de Insag disseram através de Agnar? Não percebe que eles falaram com sua chefa em seu leito de morte? E que agora tentam falar com Marieh? Pouco importa no que acreditamos, Monsenir! O mensageiro de Ethar e os ancestrais de Agnar têm a mesma mensagem para você: saiam de Insag!

     

    (continua sexta, 12/03)



    Escrito por Elizio Eluan às 20h43
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    4. Mensagens de Ethar

    Monsenir observava aquele alto e magro senhor, que ainda mantinha a postura firme de seus tempos de soldado, olhando aliviado para Marieh. E de repente a grande alegria de reencontrá-lo dá lugar a uma curiosidade que já vinha ganhando forma há algumas horas.

    - Parece que você não veio aqui apenas rever velhos amigos...

     Veothar responde virando-se para Monsenir:

    - Não. Apesar de você ser um dos último contemporâneos a mim ainda vivo, vim a Insag cumprir uma missão que me foi dada enquanto eu estava em coma.

    Imediatamente veio à memória de Monsenir os "poderes" que deram certa fama a Veothar durante a guerra. Ele falava com os mortos e tinha sonhos proféticos que se cumpriam. Por vezes tais pressentimentos se confundiam com sua imensa fé. Era aí que falhavam. Veothar continuou:

    - Um mensageiro de Ethar encontrou meu espírito vagando entre a vida e a morte. Ele me revelou verdades sobre o presente e o futuro de nosso mundo. Minhas lembranças sobre suas palavras são confusas como um sonho. Mas algumas mensagens suas não me saíram da memória.

    Monsenir está atento, mas confuso com palavras que desafiam suas crenças. Ao mesmo tempo confia no amigo. Ele percebe uma certa hesitação de Veothar e o estimula.

    - Mensagens?

    - Ele falou que devo proteger a filha de Josah. Ela terá um papel a cumprir em favor de Sideron.

    Monsenir permanecia calado. Olhou para Marieh e percebeu que ela o observava do centro do templo.

    - E o mais importante, Monsenir. Vocês devem deixar Insag. O mais rápido possível!

    Monsenir volta seu olhar novamente para Veothar, desta vez incrédulo. Esboça pronunciar alguma palavra, mas parece não encontrá-la ou contê-la olhando para os lados confuso.

    - Uma batalha acontecerá aqui...

    - Mas o que está dizendo? - interrompe Monsenir. O que quer que eu faça? Esta é nossa terra há 30 anos. Como pode aparecer repentinamente depois de anos ausente deste mundo e me pedir que cumpra uma mensagem de Ethar... Monsenir se contém, mas continua - Desculpe, Veothar! Você felizmente não viu o que eu vi aqui. As verdades que você soube em coma talvez não tenham sido as mesmas verdades que vivi neste mundo. Sua fé é inabalável e viva. Mas você não pode pedir que eu aja com olhos nela! As pessoas que vivem em Insag perderam seus valores religiosos quando viram que seus destinos não estavam sob os olhos de um deus, mas de mortais que se dizem muito mais evoluídos que nós, mas que aprendemos que têm interesses e fraquezas próprias!

    - Você não precisa crer que estas mensagens vieram de Ethar! Mas elas  me foram passadas, Monsenir! Elas existem!

    - Já vi muitos, ao sentirem suas vidas se esvaírem, delirarem suas crenças, Veothar. Você delirou sua fé num estado entre o viver e o morrer.

    - Eu sonho com homens prateados fazendo guerra em Insag... - Monsenir e Veothar não perceberam, mas Marieh havia se aproximado. Os dois calaram-se com as palavras da menina. Ela continuou calma, mas enfática:

    - Agnar também sonhou. Ela dizia para deixarmos Insag.

    - Eram delírios de Agnar em seus últimos dias - tenta explicar Monsenir.

    - Talvez os mesmos delírios que eu tive! - fala Veothar com ironia.

    O chefe de Insag agora se flagra pensativo. Veothar, com um olhar firme, continua:

    - Os meta-humanos chegarão em Insag! E se você não der ouvidos as mensagens, vou levar Marieh comigo.



    Escrito por Elizio Eluan às 14h52
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    3. Veothar (continuação)

    A vida em Insag tinha uma permanente guarda para impedir invasões de grupos saqueadores de alimentos. Eles vinham principalmente através do rio Mesag. A prosperidade e grande fartura da tribo causavam cobiça daqueles que tinham dificuldades de viver na cidade devastada.

    A movimentação de Monsenir e seus cinco guardiões em direção a noroeste da roda central chama a atenção das pessoas que ainda se aglomeravam por ali. Percebendo a aproximação do grupo, o forasteiro desce de seu cavalo. Atrás de Monsenir, os cinco guardiões sacam suas armas de fogo. Eles continuam a caminhar em direção ao cavaleiro.

    O homem estende a altura de seu peito suas mãos vazias. Monsenir pára a uns 100 metros de distância e faz sinal para seus companheiros se colocarem em guarda.

    - Diga seu nome! - fala Monsenir em tom de ordem.

    - Me chamam de Veothar - responde o homem com uma voz robusta.

    Monsenir o fita durante alguns segundos tentando vencer a distância de 100 metros.

    - O único homem familiar a esta tribo chamado Veothar morreu há 32 anos! Identifique-se!

    O forasteiro então passa a caminhar em direção aos seis homens de Insag, mantendo suas mãos à mostra. Monsenir se mantém imóvel, ansioso por uma distância mais favoráveis a seus olhos. Pazir então coloca o homem em mira, e recebe uma rápida advertência de Monsenir, que, tentando precipitar a diminuição da distância, também passa a caminhar em direção ao homem.

    - Onde está sua fé, homem? A única maneira de me identificar é tornar-me reconhecível a seus olhos?

    Então Monsenir abre um sorriso há tempos não visto em seu rosto - Veothar!

    Os dois se encontram num grande abraço amigo. Monsenir se afasta para poder reconhecer o rosto de Veothar e acreditar na sua presença.

    - Pensei que estivesse morto!

    - Eu sobrevivi. Estive em coma por mais de 30 anos. Graças a Ethar e aos cuidados do Dr. Heliar estou de volta!

    - Que boa notícia! Veothar!

    - Mas parece que cheguei num momento de tristeza...

    Monsenir desfaz aos poucos seu sorriso e fala com pesar - Agnar, filha de Josah, faleceu na tarde de ontem...

    A face de Veothar transforma-se num semblante tenso, derrotado.

    - A peste alienígena - continua Monsenir. Ela ingeriu alimentos contaminados na cidade. Sofreu por sete meses, mas agora está livre.

    - Não pode! A filha de Josah... Cheguei tarde demais então. Ethar me deu a missão de voltar à vida e proteger a filha de Josah.

    Monsenir fica surpreso com as palavras de seu velho amigo. Não apenas pela missão que ele revelara, mas pela segunda citação a Ethar, um nome há muito sem sentido no coração de Monsenir, mas que lhe trás lembranças de sua amizade por Veothar e sua profunda fé, mantida talvez pela ausência de 32 anos do mundo material.

    Aliás, seu verdadeiro nome era Samir. Ele foi chamado de veothar durante a guerra, quando foi soldado das forças da Aliança Sul junto com Monsenir. Samir  se manteve fiel a sua fé no Grande Deus de Sideron. Veothar, na língua tronco dos antigos ancestrais que povoaram aquele continente, significa Mensageiro de Deus. Monsenir não sabia na época o quanto esse nome era propício para aquele homem. Não sabia, até que Veothar revelasse seus verdadeiros propósitos em Insag.

    A montaria ficou sob os cuidados de Pazir, enquanto Monsenir levava seu amigo até o Templo dos Ancestrais para mostrar que ainda havia uma filha de Josah.

    Marieh estava ajoelhada no centro do templo, circundada pelo altar cheio de objetos e lembranças dos parentes mortos de Insag. Estava virada para os vasos que guardavam a memória de Agnar. Sua voz cantava, cortada por pequenos soluços.

    Ao vê-la, Veothar fechou os olhos com alívio. Beijou a própria mão, tocou a palma em sua testa e acenou aos céus, lembrando Monsenir do antigo gesto dos seguidores de Inri, o homem santo que viveu em Sideron há dois mil anos.

    - É ela! Posso ver sua energia. É ela quem devo proteger.


     

    (continua sexta-feira, 27/02)



    Escrito por Elizio Eluan às 15h56
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    3. Veothar

     

    A aurora surgia rubra quando as últimas labaredas do fogo que cremou o corpo de Agnar ainda resistiam. Durante a noite toda, Insag lamentou a morte de sua chefa ao som de cânticos que evocavam seus ancestrais para receberem o espírito de Agnar com honras. Marieh, Monsenir, Nelis e os outros 7 integrantes da casa dos Nasir, 5 primos de Marieh e 2 irmãs de Josah, não se afastaram um só instante da pira crematória, montada na roda central da tribo, próximo ao Templo dos Ancestrais.

    Já eram quase 6:30 da manhã. Aqueles que haviam se retirado para um breve descanso voltavam para a roda central da tribo para a última despedida a Agnar dos Nasir.

    Três lavradores de Insag, de três importantes casas, juntavam as cinzas e separavam os ossos mais resistentes do corpo de Nasir sobre a pira já sem fogo. Conforme as pessoas iam chegando, um cântico sem palavras, só com murmúrios abafados por centenas de bocas entreabertas ia ganhando força e dando voz à consternação.

    Os Nasir se juntam e caminham em direção a pira. Marieh ia abraçada com sua tia Mishna à frente, juntamente com sua outra tia Aleh. Os três lavradores descem solenemente a escada que levava à pira e vão ao encontro dos membros da casa dos Nasir. O cântico chegava aos ouvidos com um misto de força e carinho.

    O lavrador da esquerda, Cahli da casa dos Nabor, leva o vaso de cerâmica com as cinzas de Agnar, que representa seu apego à terra, à tribo. O entrega a Mishna, tia de Agnar.

    Savor, da casa dos Vandor, era o lavrador da direita, e entrega os ossos mais resistentes num vaso de cedro a Aleh, também tia de Agnar. Representa a força de Agnar.

    O lavrador do centro era Matias, da casa dos Selemor, mesma casa de Monsenir. Ele entrega a Marieh, num vaso de metal, pertences pessoais e fotos de Agnar, que representam a memória, a vida e a existência eterna da chefa de Insag.

    Derrepente o cântico cessa e um silêncio imenso toma conta da tribo. Todos baixam a cabeça em memória de Agnar. Apenas o barulho da brisa se ouve, até Monsenir bradar com fervor.

    - Viva Agnar dos Nasir!

    E uma grande salva de palmas engrandece o coração de todos em Insag. O grito exorcizara todo o peso da perda da alma de Monsenir, que chorava, não mais de tristeza, mas de emoção por ver toda aquela gente unida reconhecendo a força de Agnar, que estava nesse momento com certeza mais feliz vendo aquela cena ao lado dos ancestrais, livre da penosa existência terrena daquele mundo. Agora Monsenir teria a responsabilidade de chefiar todos eles até que Marieh completasse a maioridade.

    Monsenir então vê com orgulho a menina levar, junto com sua família, os restos mortais e pertences pessoais de Agnar para o Templo dos Ancestrais.

    Mas, compondo a paisagem, havia algo inusitado. Ao fundo, a noroeste da roda central da tribo, uma figura de cabelos ralos, brancos e longos ao vento, vestido com uma túnica cinzenta e montado num cavalo.

    Num sobressalto Monsenir chama seu assessor Pazir e o questiona sobre a guarda da tribo.

    - Quantos ficaram na guarda da ponte do Mesag?

    - Havia 2. Mas se juntaram a nós às 6:30 para também se despedirem de Agnar.

    - Junte mais quatro homens para me acompanharem até aquele cavaleiro. Rápido!

     

     

    (continua)



    Escrito por Elizio Eluan às 15h14
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    2. A Tribo de Marieh (continuação)

    Por ter assassinado o presidente de Lisarb, Andir e sua casa foram perseguidos e amaldiçoados pelas autoridades e pelo povo de Nemansky. Amigos e até mesmo parentes de sua casa negaram auxílio. Até que Andir, junto com sua esposa Amir, 4 filhos, a pequena neta Agnar e mais dois irmãos, conseguiram o traiçoeiro abrigo de um também ex-assessor do governo de Lisarb. Foi quando o inevitável aconteceu.

    Josah, filho mais velho de Andir, tinha 25 anos quando Andir foi traído pelo seu anfitrião e cruelmente assassinado a mando secreto de Nemansky no ano de 4203.

    Josah e toda a casa Nasir fugiram de Nemansky. Penetraram nas densas matas que ainda circundavam a cidade e se isolaram em um lugarejo próximo .

    Com o passar dos anos, a guerra se intensificou. Muitos passaram a compreender a atitude homicida de Andir devido a crescente exposição dos alienígenas. Outras casas foram juntando-se aos Nasir fugindo de Nemansky. Nenhum lugar parecia seguro o bastante da guerra e das crescentes revoltas por falta de comida e infra-estrutura na cidade. Peregrinaram nas redondezas em busca de uma terra mais fértil e segura. Atravessaram o rio Masag em embarcações construídas por eles mesmos.

    Assim nasceu em 4210 a tribo de Insag sob o comando de Josah dos Nasir.

    - Quando o avô de Agnar assassinou o presidente, ele desestruturou toda a nação Lisarb - lembra Nelis. Nossas tropas perderam a pouca força que já tinham na Aliança Sul. Ficamos um pouco mais esquecidos pela guerra e, por isso, Nemansky foi uma das capitais menos atingidas, apesar de toda a penúria. Por isso abrigamos hoje o governo Unimundial de Sideron. Nemansky deve muito aos Nasir. Nemansky deveria perceber isso sem que Agnar precisasse convencê-los. Sem que ela tivesse que ingerir a comida venenosa deles.

    As horas se passam.

    O sol já quase se põe e Agnar piora muito. Os velhos e precários aparelhos de saúde que ainda lhe mantém viva indicam a proximidade da morte. Os médicos da tribo se vêem impotentes, inseguros. Tudo já tinha sido feito.

    Todos em volta, como que espontaneamente, passam a cantar a seus ancestrais mortos. O cântico pede proteção a Agnar e ecoa nas paredes da casa de saúde.

    Agnar abre lentamente seus cansados olhos. Com um olhar vazio estende a trêmula mão esquerda para o nada e abre um leve sorriso. Responde sem que ninguém tenha ouvido alguma pergunta: "sim, estou pronta". Agnar, da casa dos Nasir, morre aos 42 anos, deixando para trás uma próspera tribo de 553 habitantes, que não mais acreditam num ser chamado Ethar, mas cultuam seus mortos.


    Marieh, herdeira direta de Insag, leva o fogo que cremará o corpo de Agnar na pira funerária, colocada na roda central da tribo.




     

    (continua)



    Escrito por Elizio Eluan às 21h21
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    2. A Tribo de Marieh

     

    - Sobreviva, Mestra Agnar. Não nos deixe... Marieh chora inconsolável sobre o magro corpo de sua irmã, Mestra da tribo Insag.

    - ... devem... partir... Era um murmúrio quase inaudível que parecia mais um delírio da sofrida alma de Agnar.

    - Não fale, mestra... poupe-se! interrompe seu principal conselheiro, Monsenir, sentado ao lado oposto na cama de onde Marieh está debruçada acariciando os cabelos de Agnar. A doença é degenerativa, irreversível e fatal. Uma bactéria trazida por alienígenas que corroe os tecidos do estômago e intestinos através de alimento contaminado.

    Ali na casa de recuperação estavam presentes os representantes das principais casas de Insag, tribo situada a 70 Km da cidade de Nemansky, fundada por Josah da casa dos Nasir, falecido há 10 anos, pai de Agnar e Marieh. A inevitável morte de Agnar dará o comando da tribo para Marieh, que só assumirá daqui a 3 anos, quando completar 18.

    - Daqui a 5 dias será aniversário de Insag... há 30 anos nosso pai nos deu essa tribo. Você deve estar aqui conosco!

    Monsenir, na autoridade de seus 65 anos, pede silêncio a Marieh com um olhar de reprovação.

    Monsenir, que desde o início da doença, há 3 meses, praticamente não deixara o leito de Agnar, solta delicadamente a mão da mestra, levanta-se lentamente, como que pudesse evitar que Agnar percebesse seu afastamento, e vai até Nelis, amiga inseparável da mestra.

    Nelis que estava sentada num discreto canto do quarto, próximo à cama, levanta-se com a aproximação de Monsenir.

    -Ela está muito mal, Nelis. Quem nos dera ter ainda os equipamentos de saúde dos tempos de glória de nosso mundo.

    -Nem nossa prosperidade do passado iria limpar essa sujeira que veio do céu. Nem a pouca ajuda de Nemansky, nem os espíritos de nossos ancestrais, nem a força de Agnar... nada é mais forte que essa peste.- Nelis fala com revolta nos olhos

    -Fizemos de tudo para curá-la. Até médicos de Nemansky vieram.

    -Agnar trabalhou tanto para evitar esta doença na tribo. Aquele sistema de desinfecção dos alimentos... um milagre. Por que justamente ela está assim?

    Percebendo Nelis fragilizada, Monsenir a abraça.

    - Não foram nossos alimentos que adoeceram Agnar, Nelis. Foram as idas a Nemansky, na sua luta para limpar o nome de sua casa.

    A história de Insag começou muito antes da degradação das civilizações de Sideron.

    Nemansky era capital de Lisarb, uma nação que, mesmo fora do grupo das grandes potências do planeta, exercia influência local em seu continente.

    No ano de 4199, Lisarb entra na Aliança Sul. Um grupo de países que se uniram para enfrentar uma outra aliança surgida no norte que iniciara, dois anos antes, uma série de invasões imperialistas para obter mais riquezas e recursos para seus povos. Estava-se iniciando a grande guerra de Sideron que iria eclodir em 4200. Por trás dessas alianças entre nações estavam os alienígenas que se enfrentavam na Guerra do Universo.

    Scorpion, que descobrira acidentalmente os segredos do Hélio Primitivo, dominou as mentes dos chefes de importantes potências de Sideron. Passou então a invadir nações detentoras de grandes recursos minerais, para dar continuidade a seu expansionismo pelo universo.

    O Cinturão de Órion, guardião do universo, protegia essas nações também através do controle de seus líderes para impedir a expansão de Scorpion em Sideron.

    Andir, pai de Josah, avô de Agnar e Marieh, era alto assessor do presidente de Lisarb, um dos países controlados por Órion. Ele percebeu as estranhas atitudes do chefe de sua nação. Passou a investigar todos os seus passos e descobriu que suas atitudes e sua liderança eram ditadas por interesses que estavam muito além daquela guerra absurda.

    Atormentado por conhecer uma verdade que todos acreditavam ser uma loucura, Andir da casa dos Nasir assassinou, na capital Nemansky, o chefe da nação Lisarb.

    (continua)



    Escrito por Elizio Eluan às 15h21
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    1. O mundo sem deus (continuação)

     

    A Guerra do Universo chegou em Sideron no ano de 4200 e destruiu o planeta durante 13 anos. No começo, Scorpion e Órion abduziram secretamente os chefes das principais nações e passaram a ditar suas ações . Eles entraram em guerra. Scorpion alimentou a mente de seus líderes sideronianos com ganância. Órion então armou seus aliados para impedir o expansionismo inimigo.

    Passados 4 anos, as nações de Órion venciam a guerra. Foi quando Scorpion, assim como fez em outros planetas, quebrou um princípio sagrado dos povos do universo - não entrar em contato direto e explícito com outros planetas de nível 2. Scorpion entrou diretamente na guerra, com sua própria máquina bélica. Instalou bases, tomou cidades, usaram todo o seu grande avanço tecnológico e revelou sua face ao povo de Sideron. Órion não teve escolha.

    Os povos nível 3 que compunham o Cinturão de Órion não tinham estrutura biológica para a guerra. Seu biotipo franzino e seu modo de agir e pensar os tornam ineficientes em combate. Órion então deu aos homens de Sideron armas mais avançadas enquanto criava em sua base, próximo a órbita de Sideron, um artifício que iria mudar os rumos da guerra: os meta-humanos.

    A partir de cópias genéticas do próprio povo de Sideron, infladas com o maravilhoso fogo do Hélio Primitivo, Órion cria um exército de super humanos. As experiências biológicas e a formação do exército duraram 1 ano e 4 meses, tempo em que Scorpion avançou terrivelmente em sua conquista. Em 4205 entram na guerra os primeiros meta-humanos, com suas armas, veículos e uniformes especiais. Eles tiveram seu crescimento super acelerado até a idade propícia para enfrentar as batalhas. Eram máquinas de guerra, sem história, sem passado, sem personalidade e com inteligência limitada. A guerra alcança sua fase mais sangrenta, mais cruel. Aos poucos os soldados humanos de Sideron são substituídos por guerreiros meta-humanos. Em 4208 é construída a Cidade Suspensa dos meta-humanos, sobre o oceano Lotus, depois chamado de Mar Negro devido a sombra da Cidade Suspensa. Lá nasceram os primeiros meta-humanos com infância, providos de maior vivência e por isso maior discernimento da realidade e poder de comando. Uma geração cada vez mais humanizada, porém preparados para ainda serem extremamente objetivos. Órion assim vira a guerra a seu favor tornando os meta-humanos guardiães do povo de Sideron.

    Em 4213 o Cinturão de Órion declara sua vitória sobre a Aliança Scorpion dentro de Sideron. Mas este foi apenas o fim da guerra declarada, o que não foi suficiente para o começo de uma era de prosperidade no planeta.

    Hoje, no ano de 4240, Sideron ainda tenta se reerguer. Focos de resistência dos Sartânios ainda causam destruição e mortes. As nações não existem mais. Existe sim um Governo Unimundial, situado na cidade Nemansky, que representa Sideron dentro do Cinturão de Órion. A população tenta se organizar dentro das cidades ou em tribos isoladas. Pouco sobrou dos avanços que o homem de Sideron construiu.

    Com o fim da guerra, os sideronianos foram proibidos de ter acesso a tecnologia alienígena existente na Cidade Suspensa dos meta-humanos - Órion argumenta que, assim como foi durante toda a sua história, os humanos de Sideron devem se erguer pelos próprios meios para que cresçam com as dificuldades. Mas a depressão é crescente.

    Os meta-humanos se organizaram, conquistaram direitos e têm ambições seladas. Geram um misto de gratidão e medo, muitas vezes transformado em ódio no coração dos homens de Sideron.

    No meio de todo este caos, Ethar tem sua presença cada vez mais tênue na mente do homem de Sideron. Cada qual procura substituí-lo por algum outro artifício que os mantenha; outros simplesmente ficaram com o Seu vazio no coração. A guerra continua pelo universo com Scorpion ainda roubando indiscriminadamente a Energia Vital das estrelas - o Hélio Primitivo.

    Um vento ruim assola o universo inteiro. Algo precisa mudar. Algo precisa ser feito.

    A energia de Ethar está sendo usurpada.

     Eu vim a Sideron para ajudar.

    É hora de acordar, Veothar!

    (continua)



    Escrito por Elizio Eluan às 19h46
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